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  • Foto do escritorGeovanne Solamini

Aposta arriscada, A Favorita sai de cena como um sucesso apesar de cortes excessivos


Imagem: Reprodução/Globoplay

Nesta sexta-feira (11), nos despedimos da saga de Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia) após 130 capítulos que nos divertiram, emocionaram e novamente nos prenderam na TV com uma história verdadeiramente intensa e dinâmica que consagrou João Emanuel Carneiro como um dos grandes autores a estrear na década de 2000.


Há quem duvidava do sucesso da novela, pois além de ser uma trama pesada e apresentar diversas cenas de violência e de morte, a novela nunca havia sido reprisada em seus 14 anos de história. Sua reprise foi uma grata surpresa a quem esperava uma escolha mais previsível da Globo, como uma re-reprise de alguma novela de Manoel Carlos ou Walcyr Carrasco, que são os grandes responsáveis pela audiência da faixa nos últimos anos.


Felizmente, “A Favorita” (2008) não seguiu os mesmos passos de suas irmãs mais velhas como foi com “Celebridade” (2003) e “Belíssima” (2005), massacradas pela audiência pelo teor violento e consideradas velhas demais para uma reprise na TV aberta. Essas duas obras citadas carregam a mesma aura da saga da dupla Faísca e Espoleta, com retratos de uma sociedade sem pudores e um bom thriller policial – gênero não mais visto na teledramaturgia atual.


Embora não tenha sido uma edição tão perfeita, a novela sai de cena com uma boa audiência e também elogiada pelo público nas redes sociais.


No quesito audiência, a reprise começou marcando índices medianos, mas se superou ao longo dos meses chegando a marcar quase 20 pontos em alguns dias. Haviam rumores que a emissora havia acelerado sua edição por justificativa da baixa audiência, mas no fim pareceu mais por uma estratégia de adequação de grade, evitando a fuga de audiência típica do final de ano.


Trama central não perdeu fôlego


Cláudia Raia, Mariana Ximenes e Patrícia Pillar em A Favorita (2008) – Imagem: Globo/Divulgação

A reprise de “A Favorita” foi responsável por mostrar que a história central da novela foi uma das coisas mais geniais que o autor escreveu na sua vida. Brincar com o público não foi fácil lá em 2008, mas agora, 14 anos depois, a oportunidade de analisar cada atitude e nuance das protagonistas foi muito interessante.


Patrícia Pillar e Cláudia Raia deram a letra com suas protagonistas, trabalho esse que não poderiam ser de outras atrizes. Sequer dá para imaginar qualquer outra em seus lugares. Ambas deram um show ao conseguirem de fato confundir o público que mesmo após a revelação da verdade, ainda enxergava traços de vilã e mocinha em cada uma. Era nítido.


Isso foi mantido na reprise, constatando que a novela tem um dinamismo muito bom, que nos faz prender na televisão. O foco dessa reprise foi a história central – que é a única que se salva – e a estratégia deu certo. O público correspondeu positivamente, onde era possível acompanhar nas redes sociais inúmeros comentários elogiando o talento e a entrega das atrizes protagonistas, assim como outros coadjuvantes. O texto primoroso e a direção impecável também ajudaram nisso.


Cenas pesadas mantidas


Flora (Patrícia Pillar) mata Gonçalo (Mauro Mendonça) em A Favorita (2008) – Imagem: Globo/Reprodução

Fomos surpreendidos pela tesoura do Vale a Pena Ver de Novo ter mantido as cenas pesadas da novela, como a morte de Salvatore (Walmor Chagas) e Gonçalo (Mauro Mendonça), que são fundamentais para o desenrolar da narrativa e marcaram o imaginário do público desde 2008.


Assim como elas, outras cenas marcantes também não foram excluídas da edição, como as do sequestro de Lara (Mariana Ximenes), a morte de Dodi (Murilo Benício) e também na reta final da novela, quando Flora toca o terror com todo mundo. Foram um deleite para o público se deliciar com uma vilã maravilhosa e a preferida do autor do texto de todas já escritas por João Emanuel Carneiro.


Enquanto Flora (Patrícia Pillar) era uma mulher fria e calculista, Donatella era o oposto, sendo uma mocinha impulsiva, passional e até mesmo burra. Mas essas características foram fundamentais para o desenvolvimento da história que deu super certo, embora o bem tenha vencido apenas no final da novela e por pouco tempo, ou melhor, por poucos capítulos.


Cláudia Raia arrasou no drama


Cláudia Raia e Carmo Dalla Vecchia | Imagem: Reprodução/Globo

Sendo um dos poucos trabalhos em que a atriz não interpreta alguma personagem cômica, Cláudia Raia pôde ser bastante elogiada novamente pela sua sofrida Donatela Fontini, perua caipirona que não teve um momento de paz na novela. Sofreu o pão que o diabo – diga-se Flora – amassou e penou nas mãos da família, da filha e de todos aqueles que foram obrigados a ficar contra ela por alguma conveniência.


A reexibição da novela fez justiça ao fazer Cláudia Raia ser reconhecida como uma das maiores atrizes do país, mas em personagens dramáticos, diferentemente do que ela costuma interpretar, como a icônica Jaqueline Maldonado de Ti Ti Ti (2010), reprisada recentemente nas tardes da Globo em 2021.


Obviamente não foi fácil competir com o estrondoso talento de Patrícia Pillar na pele de Flora, sua personagem mais marcante para muitas pessoas, mas de certa forma foi uma construção muito boa e que deve sim ser elogiada sempre que a novela for exibida, seja onde for. É preciso reconhecer que Cláudia Raia sabe sim interpretar mulheres que não sejam divertidas e gostosas muito bem, mas precisa de mais oportunidades como essa. Em Torre de Babel (1998), disponível no Globoplay, ela interpreta a vilã Ângela Vidal e dá um show a imprimir uma personalidade contida, misteriosa e psicopata para a empresária e amiga da família Toledo.


As camadas e os dilemas da personagem a fizeram de uma mocinha um tanto quanto burra, mas era impossível não se compadecer com as dores da personagem que foi injustiçada durante boa parte dos 197 capítulos originais exibidos. Enfim, merece todos os elogios e mais oportunidades como essa futuramente.


Núcleos paralelos limados


Helena Ranaldi, Malvino Salvador e Roberta Gualda em A Favorita (2008) – Imagem: Globo/Reprodução

O óbvio precisa ser dito. Os núcleos paralelos desta novela são horríveis e muito mal desenvolvidos, criados apenas para preencher capítulo e nos causar uma vergonha alheia. Isso já havia sido constatado quando a novela foi disponibilizada lá no Globoplay, em 2020.

A cidade de Triunfo inteira, o drama de Maria do Céu (Deborah Secco), o desserviço da famosa “cura gay de Orlandinho (Iran Malfitano) e a família de Romildo Rosa (Milton Gonçalves), não precisariam nunca nem ter existido.


O único ponto é que por muitas vezes a edição os exibia, hora não, o que fazia uma confusão na cabeça do público que não entendia nada, fazendo assim um problema para continuidade das cenas. É fato que o autor costuma mesmo pecar em núcleos secundários em suas novelas, corrigindo apenas em Avenida Brasil (2012). Por muitas vezes eles ficaram soltos da trama central que é tão bem elaborada.


Realmente não fizeram nenhuma falta, tanto que foram um dos núcleos mais cortados da novela, até mesmo nos últimos capítulos que foram duramente retalhados pela dobradinha com O Rei do Gado (1996), onde o foco foi apenas o núcleo central que estava sensacional com Flora aterrorizando todo mundo até os últimos minutos.


Valeu a pena ver de novo “A Favorita”?


Flora e Donatela em cena do primeiro capítulo de A Favorita (2008) – Imagem: Globo/Reprodução

Sim, valeu. Reprisada após 14 anos, A Favorita voltou ao ar em um momento que a Globo vive uma crise de audiência no horário nobre e também na qualidade de suas produções, mostrando que mesmo com todos os defeitos, é assim que se faz um novelão. Conquistou o público lá em 2008 e agora também no Vale a Pena Ver de Novo.


Com ela, os finais de tarde nunca eram tediosos e era uma delícia voltar lá para 2008, na primeira novela produzida e exibida inteiramente em HD, na qual contém cenas belíssimas gravadas em São Paulo, assim como o texto primoroso do autor e a direção vibrante de Ricardo Waddington., trazendo elementos tópicos de novelas do Manoel Carlos, como os instrumentais perfeitos que davam muito mais emoção às cenas da novela.


Antes de terminar, vale destacar que a reprise foi uma boa oportunidade de prestigiar o trabalho do elenco que brilhou como Mariana Ximenes, Murilo Benício, Elizângela, Ary Fontoura, Carmo Dalla Vechia, Lilia Cabral, Jackson Antunes, Glória Menezes e Mauro Mendonça. Assim como foi bom rever veteranos que já não estão mais entre nós, como Tarcísio Meira, Suzana Faini e Milton Gonçalves, que mesmo em personagens secundários pequenos, demonstraram seus talentos.


A Favorita certamente não é uma novela perfeita, tem sim muitos pontos negativos, mas é um bom exemplo de folhetim raiz, que o público tanto gosta. Emoção, diversão e nostalgia são os sentimentos que podem definir a sua reprise que vai deixar saudades nas tardes da Globo. Fim!



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