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  • Foto do escritorGeovanne Solamini

Orgulho: relembre a representatividade LGBTQIA+ na teledramaturgia brasileira

No dia 28 de junho (e também durante todo o mês) foi comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, em homenagem à Rebelião de Stonewall, iniciada neste dia em 1969, quando gays, transexuais e drag queens protestaram contra uma ação violenta de policiais nova-iorquinos que queriam fechar o Stonewall Inn, refúgio da comunidade na época.


No Brasil, a famosa Parada do Orgulho LGBT ganhou sua primeira edição em 1997 (na época, ainda se usava a sigla “GLS”), na Avenida Paulista, em São Paulo. Comparado até ao carnaval de grandes cidades brasileiras, a parada só cresceu com o passar dos anos, chegando a aparecer no Guiness Book, e até sendo palco das gravações da série americana “Sense8”, no ano de 2016.


Nessa contínua luta contra a exclusão e o preconceito, a comunidade LGBTQIA+ ganha cada vez mais espaço no mundo, ainda que muito devagar. Isso se reflete, claro, em todas as formas de arte, incluindo a teledramaturgia brasileira, onde personagens que pertencem à essa comunidade foram rejeitados ou amados pelo público, o que é sempre imprevisível.


Esses personagens, geralmente homens gays, quase sempre apareciam como uma figura exótica e caricata, até que finalmente ganham representações mais humanizadas, reais. Surpreendentemente, o primeiro beijo gay da televisão brasileira aconteceu na TV Tupi.


Conhecida por ter protagonizado o primeiro beijo heterossexual da TV, Vida Alves também beijou a atriz Geórgia Gomide num episódio da série de teleteatros “TV de Vanguarda”, em 1963. A primeira representação de um personagem gay em novelas foi em “Assim na Terra Como no Céu” (1970), de Dias Gomes, onde o veterano Ary Fontoura viveu o costureiro Rodolfo Augusto.

O veterano Ary Fontoura em “Assim na Terra Como no Céu” (1970) | Foto: Reprodução/ TV Globo

Mas foi só no final dos anos 80, com a promulgação da Constituição de 1988, que esses personagens começaram a aparecer com mais frequência nas novelas. No mesmo ano, a novela “Vale Tudo” trazia como personagens Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska), duas “amigas” que viviam juntas e eram muito carinhosas uma com a outra.


Elas tiveram muitas cenas e diálogos censurados até que, na metade da novela, Cecília morre num acidente. O autor, Gilberto Braga, já declarou que a morte da personagem estava prevista desde o início da novela, mas há controvérsias. Após seu velório, Cecília é citada raramente por seus familiares e amigos, como se nunca tivesse existido.

Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska) em “Vale Tudo” (1988) | Foto: Reprodução/TV Globo

Em 1989, a transformista Rogéria viveu Ninette em “Tieta” (1989), um papel especialmente escrito para ela. Amiga da protagonista vivida por Betty Faria, ela chega à Santana do Agreste para desafiar o conservadorismo dos moradores da cidade.

Tieta (Betty Faria) e Ninette (Rogéria) em “Tieta” (1989) | Foto: Reprodução/TV Globo

Nos anos 90, os autores conseguiram ousar mais com seus personagens LGBTQIA+, mas não foi tão fácil assim. Uma das personagens mais marcantes foi a travesti Sarita Vitti (Floriano Peixoto) em “Explode Coração” (1995), de Glória Perez, que criou este personagem para desmistificar a lenda de que eles existem apenas para fazer rir. Sarita era retratada de forma séria e mostrava sua vida normal no bairro onde morava.

Sarita Vitti (Floriano Peixoto) em “Explode Coração” (1995) | Foto: Reprodução/TV Globo

Nesta década, o autor Sílvio de Abreu provocou o público duas vezes, com resultados bem diferentes. Em “A Próxima Vítima” (1995), os adolescentes Sandrinho (André Gonçalves) e Jeferson (Lui Mendes) eram um casal que buscava a aceitação de suas famílias, tendo seu “segredo” revelado ao longo da novela, dando tempo para que o público se afeiçoasse a eles – o que não impediu que André fosse até ameaçado de morte durante a exibição da novela.

Sandrinho (André Gonçalves) e Jeferson (Lui Mendes) em “A Próxima Vítima” (1995) | Foto: Wagner Carvalho/Globo

A reação do público ao casal estimulou Sílvio a criar Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Sílvia Pfeifer) para a novela “Torre de Babel” (1998). Ao contrário de Sandrinho e Jeferson, eram mulheres maduras e já assumidas desde o começo da história.

Leila (Sílvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), personagens que foram “mortas pelo preconceito” em “Torre de Babel” (1998) | Foto: Reprodução/TV Globo

Nesta ocasião, o público não aceitou bem ver as atrizes interpretando um casal, sendo apenas um de muitos motivos que causaram a baixa audiência e má repercussão que acarretou numa grande reformulação na história – Rafaela e Leila estiveram entre os vários personagens controversos que foram eliminados da novela na famosa explosão do shopping Tropical Tower.


A partir dos anos 2000, a quantidade e pluralidade destes personagens foi aumentando. Em 2001, Sílvio de Abreu provocava mais uma vez com Ramona, transexual vivida por Cláudia Raia em sua novela “As Filhas da Mãe”, que retornava ao Brasil depois de anos após fazer uma cirurgia de resignação de sexo, algo fora do comum na época e que logicamente não foi muito bem aceita pelo público.

Cláudia Raia como Ramona em “As Filhas da Mãe” em 2001 | Foto: Reprodução/TV Globo

Os casais homossexuais Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) em “Mulheres Apaixonadas” (2003), e Jenifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) em “Senhora do Destino” (2004) foram bem aceitos e ganharam a torcida do público.


Em “América” (2005), de Glória Perez, Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro chegaram a gravar o primeiro beijo entre dois homens na teledramaturgia brasileira, vivendo os personagens Júnior e Zeca. O beijo, que seria exibido no último capítulo da novela, acabou vetado pela TV Globo.

Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro como o famoso casal de “América” (2005) | Foto: Reprodução/TV Globo

Nos anos seguintes, percebe-se uma certa preguiça dos autores com esses personagens, recorrendo à estereótipos de fácil assimilação pelo público: o gay caricato e a lésbica masculina. Em todas as novelas do autor João Emanuel Carneiro podemos encontrar personagens bissexuais ou de sexualidade dúbia, que acabam “forçados” a ficar com alguém do sexo oposto.


Walcyr Carrasco criou personagens que caíram no gosto popular: Cássio (Marco Pigossi) em “Caras & Bocas” (2009), Áureo (André Gonçalves) em “Morde & Assopra” (2011), e principalmente Félix (Mateus Solano) em “Amor à Vida”, a “bicha má” que dominou a novela e tomou pra si o protagonismo ao assumir um processo de redenção.

Cássio (Marco Pigossi), Áureo (André Gonçalves) e Felix (Mateus Solano) | Foto: Reprodução/Montagem/TV Globo

Já Aguinaldo Silva criou dois tipos muito equivocados, com abordagens ultrapassadas, mas inegavelmente populares: Crô (Marcelo Serrado) em “Fina Estampa” (2011) e Téo Pereira (Paulo Betti) em “Império” (2014).

Crô (Marcelo Serrado) de “Fina Estampa” (2011) e Téo Pereira (Paulo Betti) de “Império” (2014) | Foto: Reprodução/Montagem/TV Globo

Podemos destacar positivamente o bom trabalho de Maria Adelaide Amaral no remake de “TiTiTI” (2010), que nos trouxe dois personagens muito bem desenvolvidos: Julinho e Thales. Seus intérpretes, André Arteche e Armando Babaioff que brilharam com seus personagens.

André Arteche e Armando Babaioff em “TiTiTi” (2010) | Foto: Reprodução/TV Globo

Os personagens e também atores LGBTQIA+ também tiveram maior espaço na TV e teledramaturgia da última década, mas ainda assim, enfrentam um grande preconceito. Mas sem dúvida nenhuma, o grande personagem que representa a comunidade estava em “A Força do Querer”, em 2017.


Mais uma vez retratando vivências e realidades pouco conhecidas do grande público, Glória Perez trazia ao público Ivana (Carol Duarte), adolescente de classe média alta que, durante a novela, passa por um longo processo de transição até se entender como um homem trans homossexual, Ivan.


Apesar de alguns detalhes equivocados na evolução da personagem, Carol emocionou com uma composição sensível logo em seu primeiro trabalho na TV, Glória dosou perfeitamente o drama com o didatismo, traçando um paralelo entre Ivan e a travesti Elis Miranda (Silvero Pereira), deixando bem claro para o público que transexuais e travestis não são a mesma coisa.

Silvero Pereira e Carol Duarte em “A Força do Querer” (2017) | Foto: Reprodução/Montagem/TV Globo

Primeiro beijo


Muito se espanta que o primeiro beijo oficial entre duas mulheres não tenha sido exibido pela TV Globo, um canal progressista, e sim pelo SBT. Foi a emissora de Silvio Santos que exibiu o beijo protagonizado pelas atrizes Luciana Vendramini e Giselle Tigre, em “Amor e Revolução (2011), novela que retratava a época da Ditadura Militar no Brasil.


A cena marcou a teledramaturgia, mas definitivamente sequer seria escrita hoje, uma vez que o canal é alinhado ao conservadorismo do atual Governo Federal e tem focado seus investimentos apenas em novelas infantis, nas quais preferem não tratar de temas mais complexos.

Luciana Vendramini e Giselle Tigre em “Amor e Revolução (2011) | Foto: Reprodução/SBT

Depois desse episódio, foi a vez da TV Globo exibir o primeiro beijo entre dois homens no último capítulo da novela “Amor à Vida” (2013), protagonizado por Mateus Solano e Thiago Fragoso. O casal já tinha caído no gosto do público, e teve seu gesto de carinho bem aceito.

Mateus Solano e Thiago Fragoso em “Amor à Vida” (2013) | Foto: Reprodução/TV Globo

A partir daí, beijos entre pessoas do mesmo sexo foram vistos mais vezes nas novelas, com repercussões negativas e positivas: Giovanna Antonelli e Tainá Müller em “Em Família” (2014), as veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg em “Babilônia” (2015) – o corajoso beijo exibido logo no primeiro capítulo da novela foi o símbolo de um boicote promovido pelo público mais conservador.

Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro em “Babilônia” (2015) | Imagem: Reprodução/Globo

Em 2018, Juliano Laham e Pedro Henrique Müller deram o primeiro beijo gay do horário das 18h em “Orgulho e Paixão” (2018); Bia Arantes e Anaju Dorigon normalizaram o feito em “Órfãos da Terra” (2019).

Beijo entre Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio) em “Malhação – Viva A Diferença” (2017) | Foto: Frame de vídeo/Reprodução

Até “Malhação” teve seu primeiro beijo gay, com as personagens de Manoela Aliperti e Giovanna Grigio na temporada “Viva a Diferença”, em 2017.


Claro que ainda há muito o que evoluir, mas com certeza essas personagens e outras que não foram citadas no texto, já serviram para abrir o caminho para a representatividade LGBTQIAP+.


O intuito deste texto é celebrar a diversidade relembrando as melhores e/ou as mais marcantes figuras da comunidade na teledramaturgia brasileira.


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