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  • Foto do escritorGeovanne Solamini

Cultura grega, protagonista ofuscada e ”Pobreza Pega”: relembre curiosidades de Belíssima

Novela de Silvio de Abreu foi marcada pela interpretação magnífica de Fernanda Montenegro como a vilã Bia Falcão e seu clássico “pobreza pega”, mas não só isso


Gloria Pires e Tony Ramos em 'Belíssima' (2005) | Imagem: Reprodução/Globo

Nesta segunda-feira (22), o Globoplay resgata mais uma novela através do Projeto Originalidades, que traz a versão na íntegra da novela ‘Belíssima’ (2005), substituindo a sua versão editada do ‘Vale a Pena Ver de Novo’ que foi ao ar entre 2018 e 2019.


A novela de Silvio de Abreu que debate a beleza e o poder conta a história da empresária Júlia Assumpção (Gloria Pires) que sofre nas mãos da avó, Bia Falcão (Fernanda Montenegro) desde a morte dos seus pais por nunca ter conseguido ser igual à sua mãe, que eram um símbolo da mais pura beleza absoluta, como a própria matriarca definia.


Diante disso, a personagem encontra forças em sua paixão por André Santana (Marcelo Antony), um operário da sua fábrica que aparece na sua vida por acaso, só que não. Na verdade, o bonitão fazia parte de um plano arquitetado pela matriarca da família Falcão para roubar os bens da neta.


‘Belíssima’ pode não ser uma novela que é unanimidade entre os noveleiros, ainda mais por conta das decisões do seu autor quando ainda era diretor de dramaturgia da TV Globo, mas reúne elementos de um folhetim clássico e que certamente são inesquecíveis. Relembre algumas curiosidades da novela.


Cultura grega nas telinhas


Imagem: Memória Globo

Pela primeira e até então unica vez foi possível viajar para a Grécia através das nossas televisões. A escolha em ambientar a novela nesse paraíso tem tudo a ver com a proposta inicial da trama que é criticar a obsessão pelo poder e pela imagem em uma sociedade regida por aparências.


Segundo o Memória Globo, Silvio de Abreu teve a ideia de ambientar a novela no país para mostrar ao público a beleza e a história do lugar que foi berço da civilização europeia, considerada um dos maiores patrimônios históricos da humanidade.


O autor e a diretora Denise Saraceni chegaram a viajar juntos para lá a fim de conhecer e escolher os melhores locais para a gravação, direcionando 30 dias para toda a equipe produzir a novela. A capital Atenas, mais as ilhas de Milos e Santorini foram os principais cenários para a história. No Brasil, era ambientada em São Paulo, assim como todas as novelas do autor justamente por também se conectar com a ideia de beleza e poder.


Bia Falcão


Imagem: Globo/Reprodução

Muitas pessoas podem não saber, mas Silvio de Abreu queria Sônia Braga para ser a grande vilã da novela, ou seja, queria a atriz para ser Stella, mãe de Julia (Glória Pires), assim repetindo a relação de mãe e filha que as atrizes tiveram na novela ‘Dancin’ Days’ (1978), de Gilberto Braga.


Isso acabou não dando certo, pois por mais que a atriz tenha sido convidada pessoalmente pelo autor e adorado o perfil da personagem, não acertou seu contrato com a TV Globo por conta de outros compromissos profissionais que tinha que cumprir nos Estados Unidos.


Depois de tanto pensar em outras atrizes, Silvio criou a figura da avó má, a Bia Falcão que conhecemos hoje, criada especialmente para Fernanda Montenegro que já voltaria a trabalhar com o autor depois de ‘Guerra dos Sexos’ (1983), ‘Cambalacho’ (1986) e ‘Rainha da Sucata’ (1990).


Foi uma grata oportunidade de ver uma das maiores atrizes do Brasil interpretando uma mulher capaz de tudo pelos seus objetivos. Era o momento dela. Apenas foi uma pena não ter Sônia Braga na novela, atriz que apareceu na novela seguinte ‘Páginas da Vida’ (2006), em um personagem bem aquém do seu talento. Desperdício!


Protagonista ofuscada pela antagonista e a coadjuvante


Imagem: Globo/Reprodução

O que vem no seu imaginário quando se fala em ‘Belíssima’? Aposto que a resposta é Bia Falcão, mas quem era realmente a protagonista era Júlia Assumpção. Esse era um desejo antigo do autor e o mesmo quis dar a ela uma personagem com desenhos diferentes, segundo ele isso aconteceu.


Júlia é uma personagem diferente de tudo aquilo que Gloria Pires já fez, interpretando uma mulher apagada, que vive à sombra mítica da mãe e não conhece o seu lugar no mundo, mas que ao longo da novela tem um desenvolvimento muito bom, mesmo que custe um preço alto.


Se analisarmos a personagem, é possível concluir que ela exigiu bastante do talento da atriz, principalmente de sua carga dramática, pois era uma personagem sofredora, uma clássica mocinha que em muitos momentos nos deu vontade de abraçá-la. Não era uma mocinha burra e sim injustiçada.


Mesmo assim, a personagem acabou “esquecida” pelo público, sendo muitas vezes ofuscada pela própria Bia Falcão (Fernanda Montenegro) como pela coadjuvante Vitória (Cláudia Abreu), que acabam se tornando as protagonistas da história.


História sem as suas principais personagens


Imagem: Globo/Reprodução

No auge da novela, Silvio de Abreu enfrentou um baita imprevisto: as três principais personagens da novela tiveram que se ausentar da história.


Bem naquela fase que a Bia Falcão (Fernanda Montenegro) finge a sua própria morte, Vitória (Cláudia Abreu) sobre um atentado na prisão que a deixa à beira da morte, a história ficaria mais centralizada em Júlia, mas Gloria Pires adoeceu e foi obrigada a se afastar da trama.


Como solução, a personagem é internada em uma clínica para tratar um colapso nervoso causado pela suposta morte de sua avó. O acontecimento é tratado meio que do nada, fazendo com que a atriz desapareça da novela de repente.


Falsa morte de Bia Falcão


Imagem: Globo/Internet

Com certeza o plot twist da novela foi a falsa morte de Bia Falcão (Fernanda Montenegro), que por sinal é um dos melhores da teledramaturgia. Todo plano foi arquitetado milimetricamente para que todos – inclusive o público – acreditasse.


Inclusive, o autor usou um elemento bem recorrente em sua trama ao fazer diversos personagens “sumirem” por algum momento nesse dia, sendo apontados pelo público como possíveis suspeitos. Para quem aprecia esses detalhes, é uma coisa interessante.


Uma pena que uma personagem tão boa passasse tanto tempo fora da novela, mas quando voltou, voltou com tudo. Era quase impossível acreditar que a megera tinha sobrevivido ao trágico acidente na serra do mar e aparecesse lá com a maior cara de pau, mas esse era só um dos segredos de Bia Falcão.


Tudo planejado, a previsibilidade de Júlia e pronto, o espetáculo esperado estava feito. Ao final, descobrimos na última semana que Bia tinha contratado Valdete (Leona Cavalli) para fazer esse serviço, onde a cena é mostrada por um outro ângulo que jamais imaginamos.


“Pobreza pega”


Imagem: Globo/Reprodução

A cena mais famosa da novela não poderia ser protagonizada por nada mais, nada menos do que Bia Falcão. Nela, a vilã destila os seus inúmeros preconceitos contra a humanidade, principalmente racistas e xenófobos indicando que o lugar (bairro que sua bisneta morava com sua mãe) era uma zona endêmica que a contagiava. Um absurdo sim, mas apenas um retrato da elite paulistana.


Desde que ela foi exibida há 17 anos, especificamente no capítulo 207, virou um fenômeno na internet, sendo considerada um dos primeiros memes de novelas em um tempo em que isso não tinha nem esse nome, virando até mesmo um remix de música.


Quando a obra foi reprisada no ‘Vale a Pena Ver de Novo’, a cena em questão foi cortada da edição, o que decepcionou o público que tanto esperava por ela. Qual seria o motivo desse corte? O politicamente correto? Fica o questionamento.


As vedetes


Imagem: Globo/Reprodução

Podemos definir este como o melhor núcleo de humor de ‘Belíssima’, ficando a cargo de Mary Montilla (Carmen Verônica) e Guida Guevara (Íris Bruzzi), duas ex-vedetes que viviam uma relação de amor e ódio, homenageando dois gêneros que Silvio de Abreu é muito fã: a chanchada e o teatro de revista.


Segundo informações publicadas no livro ‘Crimes No Horário Nobre: um passeio pela obra de Silvio de Abreu’, de Raphael Scirse, quem deu a ideia para a existência desse núcleo foi Gilberto Braga, gerando um insight para Silvio que demonstrava interesse de fazer algo assim a muito tempo.


Em entrevista ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, Carmen Verônica disse que foi ela mesma quem indicou o nome de Íris Bruzzi para ser sua dupla na novela. Além disso, a atriz também conta que Silvio de Abreu dava muita liberdade no texto para ambas improvisarem, então muita coisa que foi ao era pura arte das atrizes.


A araponga e a “dinossaura” de salto agulha fizeram tanto sucesso que no último capítulo as duas protagonizaram um belo espetáculo com a participação de diversas outras vedetes famosas. Não parando por aí, depois do fim da novela, as duas atrizes protagonizaram um espetáculo juntas e ainda em 2007, Carmen Verônica reviveu a personagem icônica em uma participação especial na novela ‘Paraíso Tropical’.


Último trabalho de ator veterano


Imagem: Globo/Reprodução

‘Belíssima’ foi a última novela da qual o ator Gianfrancesco Guarnieri participou e mesmo assim, não conseguiu terminá-la devido a problemas de saúde que enfrentava na época da novela.


Na trama ele interpretava o italiano Pepe que era diretor de teatro do Grupo Oficina que em todas suas cenas aparecia sentado e com poucas falas. Devido a esse problema de saúde ter se agravado, o ator não conseguiu concluir as gravações dos últimos capítulos, fato que prejudicaria a trama pois o seu personagem guardava um dos principais segredos da trama: ele sabia quem era a filha renegada de Bia Falcão.


Assim, então, no último capítulo o ator é homenageado com uma ligação de Pepe para Murat (Lima Duarte), justificando a sua ausência no aniversário de casamento do amigo. É um momento muito bonito, onde Lima Duarte até quebra a quarta parede de maneira bem sutil e fala com a câmera. O ator faleceu em 21 de julho de 2006, semanas após o fim da novela.


Último capítulo surpreendente


Imagem: Globo/Reprodução

Considero que a novela possui um dos melhores últimos capítulos da teledramaturgia brasileira e isso tem um porquê. O autor chegou a escrever cinco finais diferentes para revelar o mistério sobre a origem e o destino de Vitória (Cláudia Abreu) – em uma cena magnífica que descobre ser filha de Bia (Fernanda Montenegro) – assim como desfecho da vilã.


O gancho do penúltimo capítulo é um gatilho, pois não se sabe se Vitória ou André foram atingidos pelo tiro de Bia Falcão, agora o ponto forte do último capítulo é o surpreendente final da mesma: em Paris com o seu amante, pasmem, Matheus (Cauã Reymond). Quem esperava por essa? Dona Bia Falcão pintou e bordou, mas acabou muito bem!


Por fim, a novela é uma boa pedida para os apreciadores de um dos melhores textos da teledramaturgia, gosta de um folhetim clássico e ainda é fascinado por um suspense policial. Se você for paulistano vai se sentir dentro da história e se não for, com certeza vai querer conhecer a cidade que foi fortemente explorada com diversas cenas externas e com muito menos violência do que os últimos thrillers do autor no horário nobre.


É uma novela que te instiga, te fascina pela sua beleza de produção (cenografia, fotografia, figurinos, etc.), como também pela sua classe. Há uma certa sofisticação que talvez hoje em dia as novelas tenham perdido e o público também não sente falta, infelizmente.



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